Publicidade old school: aqui o papo é reto!

Em uma época em que o Salão do Automóvel (e das mulheres nham-nham) não passava na televisão, a publicidade precisava adotar uma estratégia mais realista e menos subliminar. Melhor dizendo, nada subliminar.

Hoje em dia esta propaganda seria defenestrada como resquício do sexismo mais vulgar. O que nos leva a formular a subversão da frase atribuída a Goebbels: Uma verdade dita mil vezes vira mentira. Será?

Satisfação garantida ou seu casamento de volta

Aleluia, Mayara? (título sugerido por Rubem Bastos, o Perry White deste blog)

Enquanto não possuo iluminação espiritual suficiente para escrever um texto para a Folha de São Paulo, escrevo aqui mesmo, no meu espaço monocrático de debates.

Sempre achei impressionante a capacidade da direita (que é um termo muito mais simples e abrangente do que todos os paleativos) de ser diversionista. Possuidor do mesmo radical, o diversionismo de divertido não tem nada, sendo muito conhecido por quem já possui alguma intimidade com a retórica ou com aqueles que adoram transformar conversa de boteco em campo de batalha.

Dentro do campo parlamentar é até compreensível que seja cultuado e utilizado, muito embora seja artifício maldoso e contraproducente. Mas na esmagadora maioria das vezes o recurso do diversionismo é utilizado por pessoas que nem sabem que a ele estão recorrendo, sendo fruto tão somente de uma má-fé misturada a um pingo de algo parecido com esquizofrenia, sendo esta totalmente curável com leituras diárias e um mínimo de coerência; algo análogo a duas grandes de açúcar e uma pequena de sal.

E o que poderia ter me espantado? Agora que todos os absurdos possíveis e inimagináveis saíram do baú. Depois de termos assistido a argumentação da UDN e da ARENA tomar corpo, ganhar voz e movimento através de pessoas que estavam ali, trabalhando ao seu lado, e que do dia para a noite começaram a entender tudo e mais um pouco de política, como se tomados por uma possessão inexpurgável alimentada por correntes de email.

Escreve hoje na Folha de São Paulo (não vou nem me dar ao trabalho de comentar sobre  jornais) uma professora de direito que defende a tal sujeita que sugeriu alguma coisa do menu do restaurante Chez Adolf a ser feita com os – que ela chama de-  nordestinos; sim, coloco a ressalva porque sei que para pessoas “esclarecidas” como a panfletária em questão o nordeste é financeiro, não geográfico.

Mas voltando a advogada (nos dois sentidos), se bem entendi o texto tem uma estrutura mais ou menos assim: Ela começa dizendo que tem avós nordestinos (ok, essa me soou como “eu até tenho um amigo gay”, ou negro, dependendo da situação), depois disse que era triste ler frases como a da estudante, que ela defende (????), mais um parágrafo e já sabemos o motivo da rejeição a José Serra: ele é paulista (!!!). Aqui uma pequena pausa: se ela já sabia disso por que não avisou a campanha do Serra? Se o PFL virou DEMOCRATAS (o maior exemplo de ironia já dado), se o PSDB quase virou um partido de esquerda no discurso de seus entusiastas e se um milionário britânico trocou de sexo duas vezes, transformar o Serra em nordestino seria facílimo.

Continua a nossa quixotesca professora da Oscar Freire dizendo que o Presidente fomentou a separação do Brasil (certamente ele também inventou a seca, a fome e a concentração de renda) e que nosso país sempre foi exemplo de união, ou seja, a “harmonia entre regiões” é algo parecido com a nossa “democracia racial”? Ahhhhhhh, entendi. E termina com o trivial, falando que o governo é bobo, feio e que o Brasil deve se unir, pois a tal estudante é vítima desta política separatista. Fofo não?

Está aí um belo exemplo do diversionismo que eu comentava no começo do texto. Quando se procura defender o indefensável, seja a manutenção da desigualdade racial, de gênero, na distribuição de renda, ou quando se quer defender qualquer tipo de ódio o único estratagema é este, apelar à confusão, a argumentos puramente retóricos, devidamente temperados com má-fé.

P.S.: Estas discussões sobre raça e região no Brasil sempre me lembram um filme do Sylvio Back chamado Aleluia, Gretchen. Nele uma família foge da Alemanha nazista para o Vale do Itajaí, e aqui a casa vira ponto de encontro de simpatizantes do nazismo. Um empregado negro com eles convive passando a vibrar com cada vitória do Eixo e recorrendo aos artifícios mais engraçados para “virar branco”. Quando a guerra acaba, ele, entristecido, pergunta para a Hausfrau: E agora Frau Kranz, o que vai ser da raça ariana? Cada brasileiro que vocifera contra as minorias (quem pensar em minoria numérica pode voltar para o Mobral) me faz lembrar este personagem, que de tão doutrinado negava a si mesmo.

Ócio produtivo

Nada como uma gripe para ativar um tanatoblogueiro. Com tantos textos escritos e não postados seria possível fazer um “lado B” do Tango Ilhéu, isso se eu não acreditasse que ele é um “lado B” por si só.

E nada combina mais com “lado B” do que música, então vou deixar aqui um videoclipe que foi feito pelo pessoal do econstories (www.econstories.tv) que põem em ação dois ícones do que eu chamaria de “real gangsta rap”, porque pensamento marginal é com eles.

O Hayek pode até ter ganhado a batalha, mas o Keynes além de ser o mais descolado pode dizer de peito estufado: “Say it loud, say it proud, we’re all Keynesians now”. Ainda mais em tempos de crise.

Outro que vale a pena, mais ainda para quem já estudou economia pelo livro Principles of Economics (a.k.a Economics for Dummies – The true one), é do standup economist Yoram Bauman. No video ele traduz os “Dez Princípios de Economia” que Mankiw coloca no referido livro. Só não concordo com a tradução dos princípios 8, 9 e 10, pois resultariam em ótimas piadas. Mas tudo bem, isso demonstra que o nosso querido Bauman é um standup microeconomist.

http://www.youtube.com/watch?v=LPUEgEdCTp8

Tietagem du jour: BJÖRN AGAIN

Ante-scriptum: As fotos deste post foram feitas com uma máquina danificada, sem foco e com com “fantasmas”.

Para botar este digesto de futilidades difusas para funcionar novamente, nada melhor do que um bom evento. E não é que consegui o melhor possível? Trata-se do show da melhor banda cover de ABBA do mundo, a Björn Again. Para quem não teve a chance (e principalmente  idade) para assistir ao fantástico quarteto sueco em ação, a Björn Again é o mais próximo que se pode querer. A banda já aclamada em todo o mundo desembarcou pela primeira vez na América do Sul e fez um memorável show para uma platéia maravilhada/atônita no Luna Park em Buenos Aires.

"Thank you for the music" a última música expressou o momento

Nem é necessário dizer que garanti o meu ingresso no local mais próximo possível ao palco. Fui recompensado com vários “you” de músicas, com as senhoritas Agneta e Frida apontando para mim (sim, isso é tietagem da braba, admito, guilty, guilty).

Confesso, quando o "you" era para mim, não conseguia apertar o botão da máquina.

No setlist os maiores sucessos do ABBA foram mesclados com várias piadas entre os membros que durante todo o show são condescendentes com os fãs ao ponto de não mencionarem seus nomes reais. Assim como no cinema, pagamos para ser “enganados” durante 90 minutos, e isso a Björn Again faz de modo tão magistral que sentimos uma empatia quase imediata por aqueles músicos por detrás das personas.

A "nova" Frida do Bjorn Again. Alguma dúvida que foi uma troca acertadíssima?

O público aqui foi brindado com versões em espanhol de I have a dream e Chiquitita, fazendo com que até os mais envergonhados cantassem junto, lembrando certamente dos singles lançados na Argentina. Também há uma mistura de elementos com os grupos que gravaram ABBA como o medley estilo rap de Take a chance on me como na versão da banda Erasure, e outro de Hung up durante Gimme, Gimme, Gimme (a man after midnight). Além disso, S.O.S ganhou um final à The Police, aproveitando a parte final de Message in a bottle. Durante a mudança de figurino das duas divas (Ousem dizer o contrário! Ousem!) Benny e Björn aproveitaram para fazer um medley Rock’n Roll, onde figuraram vários riffs famosos, culminando com Living on a Prayer. Pelo visual, certamente Benny faz um extra com uma banda cover de Bon Jovi.

Vocês não acharam que eu ia sair sem o setlist na mão, acharam?

Ah, durante o show não faltaram piadinhas picantes, provocações à platéia, dancinhas que falam por si só e todos aqueles elementos do ABBA que somente este escriba e o Diogo conseguem perceber.

Conferindo a qualidade do back cover. Foto também chamada de "Tributo ao fã ausente do ABBA"

O primeiro post de 2010 vai casado com o melhor show. Melhor modo de começar é impossível. Björn Again: se tiverem a chance, não percam!

Em bom manézês: Curticera f.... Nego baita!

Arquivos e os fetiches do historiador

Depois do aniversário de minha última postagem aqui, resolvi tirar a cara do pó (do arquivo que fique claro) e postar, ou melhor, dividir algumas coisas. Sim, a falta de escrita neste blog se deve a incrível lógica do “posgrado argentino” que nos entope de trabalhos e deixa essa “coisa sem importância”, que é a dissertação, lá em último lugar. Como eu opero com a minha lógica, resolvi mandar os trabalhos às favas e começar a pesquisa o quanto antes. Afinal não estou aqui para passar duas semanas lendo sobre a Guarda Nacional Peruana, por mais interessante que ela seja.

Os arquivos, como sempre, me deram um motivo para sorrir e acreditar que o sol ainda nasce na minha vida de historiador. Sim, porque antes a previsão era de, no mínimo, granizo.

Estou vivendo em função dos horários que me são concedidos para pesquisar no Archivo de la Cancilleria Argentina. Lá estou fuçando de tudo e tenho encontrado coisas assaz interessantes. Como por exemplo a preocupação do então chanceler, Estanislao Zeballos, de organizar o corpo diplomático argentino. E quando eu digo organizar, era organizar mesmo. Pergunto-me se isso é devido ao bom exemplo do Barão do Rio Branco? (seu maior inimigo, pessoa que mais o fascinava e na verdade, sua obsessão).

A questão é que encontrei os croquis dos fardões do corpo diplomático argentino, que estavam inspirados, para dizer o minimo, nos de seus pares brasileiros e protetores britânicos.

Deste modo se via um Ministro Plenipotenciário vindo...

... e assim indo. Visão esta preferida pelos seus vizinhos durante o período histórico que estudo.

E claro, todo pesquisador que se preza possui seus momentos de fetichização máxima. O meu em particular foi encontrar as assinaturas dos personagens que estudo em meu trabalho. Sim, vibrei com a do Zeballos também, senão vão dizer que estou estudando-o  ad argumentandum tantum.

Afora tudo isso, vejo que  a confecção da tesis, no que depender deles, está longe, muito longe…